Luciana, interpretada por Alinne Moraes na novela global Viver a Vida, tem chamado a atenção dos telespectadores para o processo de adaptação de pessoas que se tornaram tetraplégicas ou paraplégicas. E mais que isso: quebra a falsa ideia da maioria de que é impossível ser feliz quando se locomove com uma cadeira de rodas.
A ex-modelo está voltando a viver, sentir prazer, namorar e arriscar coisas novas, após o período de tristezas e dificuldades para aceitar suas limitações corporais.
Engana-se quem pensa que isso acontece apenas na ficção. A jornalista Flávia Cintra, de 37 anos, é uma Luciana real.
Aliás, serviu de inspiração ao autor Manoel Carlos e ainda atua como consultora da trama.
Sofreu um acidente em 16 de outubro de 1991, perdeu os movimentos das pernas e parcialmente os dos braços. Isso não a impede de trabalhar, se relacionar e cuidar dos filhos gêmeos.
"No início, é difícil encarar o olhar das pessoas, mas depois você percebe que o preconceito é uma limitação do outro. Hoje em dia, eu sinto muito pelas pessoas preconceituosas, porque sei que são elas que perdem mais com isso", disse.
"Nunca pensei em desistir, mas é claro que passei por momentos de tristeza, impotência, angustia e muita dor. A superação veio quando decidi que não esperaria o dia de voltar a andar para voltar a viver. E para viver bem foi necessário garimpar informações sobre as possibilidades disponíveis."
O papel de Alinne mostra uma lista de detalhes importantes à adaptação ao dia a dia:
1) Conta com utensílios que ajudam a segurar os talheres e a digitar;
2) A fisioterapia tem papel fundamental na busca por mais autonomia;
3) Espaços adaptados, com rampas e banheiros grandes, também são mencionados, inclusive em seu blog, Sonhos de Luciana, que saiu da ficção direto para a internet.
O folhetim trouxe uma amiga à Luciana, Camila, interpretada por Vanessa Romanelli, uma cadeirante na vida real que tem atrofia espinhal. A nova personagem lembrou em uma entrevista ao diário virtual que até mesmo atitudes simples dos familiares podem ajudar no processo de autonomia.
Segundo ela, devem cuidar, sem passar do limite. Se a pessoa consegue cortar os alimentos sozinha, não faça isso por ela. Caso não tenha habilidade para amarrar o sapato, ajude, mas sugira o uso de um que não precise amarrar.
Sexualidade e maternidade
Especula-se que Luciana será mãe de gêmeos no fim da novela. Flávia também passou por essa experiência. Mateus e Mariana nasceram em julho de 2007.
Como qualquer mãe, cuida da alimentação, brinca, canta, dança, leva para passear, faz dormir. Seus maiores desafios não se referem à sua deficiência, mas em lidar com a maternidade no mundo moderno. Esforça-se para driblar a agenda de trabalho e permanecer mais tempo com os pequenos.
Assim como a personagem, teve dúvidas sobre a possibilidade de vida sexual. E isso é possível, redescobrindo o corpo e novas formas de prazer.
"Algumas das regiões erotizantes perdem a sensibilidade. Para a mulher é mais fácil e ela ainda tem sensações interessantes geradas pela capacidade de imaginação. A dificuldade no homem é a ereção. Em alguns casos, pode-se colocar próteses para que consiga tê-la, afirmou Roberto Colichio Gabarra, professor de neurocirurgia da Universidade Estadual Paulista (Unesp)/Botucatu.
Fisioterapia e biofeedback
Centros de reabilitação são boas apostas para quem está em fase de adaptação. A fisioterapia, por exemplo, além de fortalecer a musculatura de pernas e braços, pode auxiliar o aprendizado de manobras de compressão da bexiga para que a urina não fique retida, problema comum que leva a infecções urinárias recorrentes.
O Centro de Reabilitação Dr. Bernard Brucker (CRBB), localizado no Centro Universitário Uni Sant'Anna, campus Santana, São Paulo, oferece a técnica do biofeedback como complemento da fisioterapia a pessoas com lesões neurológicas.
"São colocados eletrodos de superfície na musculatura a ser trabalhada, conectados a um software de computador. O paciente consegue visualizar o impulso elétrico que manda ao cérebro para mexer aquele músculo. Isso aparece em uma espécie de gráfico", disse o diretor administrativo do CRBB, Yvens Martini Catalano.
De acordo com a fisioterapeuta chefe do local, Maria Eugênia Mayr de Biase, o paciente olha o gráfico e tem de tentar aumentar ao máximo o comando do cérebro para a musculatura.
A ideia é deixar o participante o mais funcional possível, respeitando sua limitação. Um dos possíveis ganhos é conseguir ficar em pé para auxiliar em uma transferência, facilitando o seu dia a dia.
A pedagoga Ana Maria Racy Mener, de 64 anos, tem dificuldades para andar por conta de uma compressão medular abaixo da cintura. Conta com as sessões de biofeedback há seis meses, com resultados positivos.
"O aparelho mostra onde está minha falha maior e tento corrigir essa deficiência. Eu tinha perdido minha consciência corporal. Quando descobri o problema, não conseguia me equilibrar e andar direito. Se não fosse me tratar, estaria na cama, sem poder me mexer. Hoje, ando distâncias maiores com o auxílio de um andador e, menores, com o de uma bengala."
Cada sessão de 50 minutos de biofeedback no CRBB custa R$ 125.
Fonte: http://gazetaweb.globo.com/

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