quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sobre o preconceito e a discriminação



      
A gente nunca imagina o que é realmente a discriminação e o preconceito, até passar por ele. Antes disso temos uma noção. Depois a sensação do choque no corpo, a boca seca e o coração que dói. É assim a discriminação e o preconceito.


E depois? Depois é aquele vazio e a mente martelando: “você é como todo mundo”.Mas, no coração, além da dúvida, fica o medo de acontecer de novo e todo mundo vê.


Daí a gente fica em casa e pensa que tudo podia ser diferente. E que esse diferente tem duas alternativas: uma, por que sou pessoa portadora de deficiência, e outra é que a cidade podia ser igual pra todos.


Na verdade se percebe que logo que essa alternativa é via única e você passa por ela. Não dá pra fugir! E o pior é que a gente tem de engolir e a seco o discurso, seja de empresário, político, padre ou pastor que somos cidadãos. Isso eu sei e uma outra pessoa portadora de deficiência também sabe, mas e vocês: padres, pastores, empresário e políticos? Realmente vocês sabem?


Eu sei que sou diferente por ter uma deficiência e não posso negar, assim como sou diferente na forma de sentir, agir ou amar uma pessoa e todos somos assim. Agora, quanto a ser um cidadão, sou e tenho os mesmos direitos e deveres iguais que qualquer um. Portanto, perante a lei somos iguais, certo?


Na teoria tudo divino mas, passando para o dia a dia, as coisas não funcionam. Se vamos pegar um ônibus, não há adaptação e a maioria dos motoristas para longe, e quando param! Daí a gente espera que alguém tenha bom senso para nos ajudar e quando estamos com sorte o motorista tem paciência e está de bom humor.


Muitas vezes a situação é contornável, entretanto, isso dificilmente ocorre porque falta o interesse dos empresários em entrar em contato com uma entidade de portador de deficiência para juntos elaborarem um esquema de palestras de conscientização e até prevenção de acidentes. Só que é mais barato deixar humilhar a pessoa portadora de deficiência, a mulher e o idoso.


Já dentro do ônibus é torcer para o lugar que nos é destinado estar vago. De canto de olho você observa uma mãe que fala para o filho: “tira o olho dele menino, é feio ficar olhando”.E você se pergunta: “será que eu sou o feio? Ou é feio ser deficiente?” E a criança que tudo quer aprender, pergunta para a mãe: “porque ele é assim?” A mãe fala: “ele é dodói porque teimava muito. E não fica mexendo com ele”.(se referindo à cadeira de rodas, bengala ou muleta). Você comenta consigo: “Mas não sou dodói e sempre fui bom filho!”.


Isso é tão enraizado e tão intrincado, que está em nossa cultura que o portador de deficiência é “dodói”, não se pode tocar, mexer ou falar com ele. E a criança cresce com isso, com essa barreira, com a visão de que o deficiente é culpado por ser torto, cego, surdo... Quando na verdade esta barreira, esse imaginário deveria acabar.


Mas esse enraizamento é tão profundo que tira até o direito de amarmos, de fazermos sexo. É como se fôssemos assexuados. Anjos! (Eu, anjo?) Basta lembrar que um tempo desse apareceu em um programa jornalístico um padre que não queria dar o direito ao matrimônio a um portador de deficiência física, pois segundo ele o casamento deve gerar frutos com diz sua Bíblia. Mas como pode ele, julgar isso se vive num tormento da mente lutando contra este sentimento? E se escondendo atrás da desculpa de amar toda a humanidade e rejeita o casamento de um portador de deficiência...?


Chega por fim a hora de descer do ônibus. Depois de toda a confusão de “aí não pode pegar”. “Segura aqui”. E por sorte não cair. O primeiro obstáculo: um carro estacionado na frente da rampa, mais adiante uma rampa muito inclinada e, o pior, não há banheiros públicos adaptados.


Tudo bem. Vamos á luta Golias! – a gente pensa. E espantado com o tamanho desse gigante, tenta não se deixar abater mesmo sabendo que a pedra é pequena para a funda e temendo um revés, se parte para romper grilhões. Com uma escarcela no colo busca-se um emprego. Logo na primeira empresa que precisa de um funcionário você entra e é bem recebido, tira, de dentro da escarcela, como se fosse um trunfo, uma seqüência incrível de cursos que infelizmente é inútil. Pelo seguinte: seus cursos de computação estão “passado”, você nunca trabalhou, não terminou os estudo e o mais chocante: você é portador de deficiência e a empresa nunca está preparada para recebe-lo. Isso dói no fundo do peito, porque você percebe que seus cursos, que geralmente são projetos do Estado, foram engodo. Que ninguém te preparou realmente para o mercado de trabalho. Que aqueles “caras” engomadinhos e eloqüentes são apenas isso: “engomadinhos e eloqüentes...” “Tudo bem! Vamos lá! As coisas estão difíceis para todos”.Você fala para si, respirando fundo pra tentar se convencer.


Já no final da tarde você riscou de seu classificado todos os empregos disponíveis, e cansado de ouvir as mesmas desculpas, volta a questionar-se: “Será que sou tão difícil assim? Que as empresas não podem nem tentar? Não existe uma lei que tem que haver pessoas portadoras de deficiências trabalhando nos quadros de funcionários?” “Lei, lei”.Repete várias vezes procurando preencher um vazio que a palavra causa. “Tudo bem Golias minha pedra é pequena! Você ganhou esta batalha!” Mas você não quer aceitar. Você não deve aceitar. E se vai calado...


Na quietude do silêncio senta alguém do seu lado e suas palavras de conforto são: “Venha pra minha Igreja. Jesus ama você! Ele curou o cego e o aleijado e, se vier comigo irá curar você”.Então cansado e tão cansado você responde: “Curar-me? Não sou doente. Por que sou eu que devo ficar ‘bom’? É errado ser um deficiente? Só devo ir para uma Igreja se ela me prometer cura? Deixe-me em paz. Eu quero apenas ser um qualquer, não estou buscando a cura e sim a igualdade...”


Somos entre 14% e 15% da população de um país como quer a Organização Mundial de Saúde. Somos muito mais... Somos massacrados, medrosos, acostumados a ficar calados, sofrer calado, sentir calado... A gente ouve falar: integração, reintegração, inclusão, etc. Tudo gente velha com roupa nova. E eu, por onde vou ficando? Eu digo: Ali, olha! Em um semáforo, no chão, na esquina, debaixo de viadutos, em programa de TV de um bichos desses: rato, leão, seja qual for; na periferia em uma casa no quartilho do quintal; temos poucos na escola, uma minoria na universidade, e uma parcela menor ainda trabalhando.


Vítima? Não. Conseqüência real da falta de uma política pública que incentive e mostre o caminho. Não fazer, mas mostrar, sem aquela de que sou preparado, me formei e trabalho nesta área há muito tempo, para que acontece uma saída às luzes...


Terei culpa em tudo isso? Sim em parte, pois eu, enquanto pessoa portadora de deficiência que estudei, ou tenha noção de meus direitos e deveres e que trabalho, não tenho tempo para mostrar que sonhos acontecem, que mesmo com uma condição financeira estável, também sou discriminado e é difícil derrubar um Golias com uma funda e uma pedra, mas acontece! Basta não ter vergonha de falar, de ajudar, de portar uma deficiência, de acreditar no outro. Basta apenas: União!


O preconceito e a discriminação são um bicho só e ele tem tentáculos enormes, não adiante ir um pra cada lado, ele alcança todos. Entretanto, se juntos, sem apatia formos de encontro, tudo acontece...


Dylson Ramos Bessa Júnior – e-mail: dylson@zaz.com.br

Nenhum comentário: